As declarações de alguns atletas portugueses nos Jogos Olímpicos de Pequim mostram que algo vai mal no reino da delegação olímpica nacional. O primeiro momento de estupefacção aconteceu quando o lançador de peso Marco Fortes declarou, com ar de galhofa, que não funcionava de manhã e que, ao terceiro lançamento, percebeu que devia é "estar na caminha com as pernas esticadas." Ora, o atleta sabia há muito tempo que a prova era de manhã e se estava cansado é porque não dormiu o suficiente. E se não dormiu o suficiente é porque não cumpriu a obrigação de se deitar cedo nos dias anteriores, de forma a adaptar os tempos do sono á prova que se advinhava. Uma competição olímpica não é um campo de férias. É caso para perguntar, onde estava o seu treinador?
Jacinto Paulinho resolveu não ir a Pequim na véspera da prova, alegadamente por sofrer de asma e por necessitar de um medicamento proibido pelo comité Olímpico Internacional para controlar a doença. Ora, partindo do princípio de que a asma é uma doença crónica, porque só chegou a ssa conclusão na véspera da prova?
Também Francis Obikwelu resolveu desistir da prova de 200 metros na véspera, depois de assumir que estava na melhor forma de sempre e era candidato à medalha de ouro. Ambas as atitudes foram lamentáveis e revelam um mau aconselhamento técnico e humano. Quem vai a uns Jogos Olímicos vai com a grande responsabilidade de representar o País e não pode desistir apenas porque lhe apetece. Afinal, o País pagou toda a sua preparação e ninguém obrigou o atleta a ir aos Jogos Olímpicos. Havia deveres a cumprir, que não foram cumpridos. Ainda por cima,os 200 metros era a prova onde tinha mais possibilidades de ober uma boa classificação... Por outro lado, também é lamentável que o atleta se tenha assumido como candidato à medalha de ouro quando não tinha tempos esta época sequer para se qualificar para a final. Seguramente, não houve aqui o merecido acompanhamento técnico e humano. Obikwelu é ainda um jovem e não pode ser responsabilizado por erros e omissões dos técnicos: a esses sim, porque têm uma formação universitária, exige-se-lhes maturidade, bom senso e sentido do dever. Parece-me incompreensível que a treinadora espanhola de Obikwelu se tenha recusado a ceder o atleta para participar nas estafetas dos 4x100 metros, onde Portugal poderia obter um bom resultado.
A leiriense Vânia Silva também não esteve bem ao justificar o seu mau resultado por não se adaptar a este tipo de provas, com estádios cheios. Ora, a atleta já sabia que nem quaisquer jogos olímpicos os estádios estão sempre cheios. Pergunta-se: o que foi fazer a Pequim, então?
A judoca Telma Monteiro atribuiu a sua derrota à arbitragem, o que também não abona muito do seu sentido de fair-play. Melhor seria se tivesse assumido o mérito das adversárias que a derrotaram, ao que sei, campeãs asiáticas e do mundo, respectivamente, um currículo de respeito. Aliás, foi lamentável que os atletas do judo fossem para Pequim mentalizados de que iriam ganhar medalhas. Em primeiro lugar, o imponderável é uma inevitabilidade em todas as provas e, no judo, ainda mais. O facto de alguns atletas serem campeões da Europa ou do mundo não oferece, de modo nenhum, garantia de medalhas. A competição é outra, os níveis de forma também, os feitos passados não são garantia de resultados futuros. Faltou também aqui um trabalho de preparação técnica e humana de quem os acompanha. Em alta competição, humildade é um dos requisitos para a vitória.
Postura completamente diferente tiveram Vanessa Fernandes, Naide Gomes e Nelson Évora, revelando humildade e pés bem assentes no chão. Seguramente, mérito também dos técnicos que os acompanham.
Contudo, uma equipa olímpica não pode ser uma manta de retalhos, onde ninguém se entende nem há códigos de conduta. A delaração do presidente do Comité Olímpico de Portugal de que só é responsável pela preparação física dos atletas e não pelo nível de educação dos atletas não colhe. Os técnicos têm de ser responsabilizados pela formação integral dos atletas, afinal passam muitas horas por dia com eles, se não forem eles a proporcionar formação cívica aos seus atletas, quem a proporcionará? Não basta um par de pernas musculadas e uns abdominais firmes para poder representar Portugal, há um sentido do dever que não podem deixar de se ter para o representar. Além das marcas desportivas há todo um conjunto de garantias que técnicos e atletas têm de dar para representar o País. Mudanças precisam-se e urgentemente!
Monday, August 18, 2008
Tuesday, July 1, 2008
Porreiro, pá!
Com o chumbo dos irlandeses ao Tratado de Lisboa, a recusa dos presidentes polacos e checos em assinar o mesmo tratado e as reservas do presidente alemão, que resolveu pedir a constitucionalidade do tratado ao Tribunal Constitucional, o castelo de cartas construído pela dupla Sócrates/Barroso ameaça ir irremediavelmente por água abaixo. Recordo que Sócrates decidiu só legalizar a interrupção voluntária da gravidez após novo referendo. No fundo, respeitou a vontade popular que alguns anos antes tinha dito não. No caso do tratado constitucional, o caminho seguido foi incomprensivelmente o oposto. A manobra de transformar o tratado constitucional num tratado em quase tudo idêntico para ser aprovado pelos parlamentos nacionais, à margem da vontade popular expressa directamente por referendo, que antes se manifestara desfavoravelmente na França e na Holanda, foi, por isso, lamentável. A democracia não se constrói passando atestados de menoridade aos cidadãos. É verdade que muitas vezes a discussão sobre as questões europeias está inquinada por questões nacionais, mas a consciência dessa dificuldade deveria levar os políticos europeus a apostarem em mais transparência e clareza para poderem explicar claramente às pessoas o que está em jogo. O caminho seguido foi precisamente o oposto, com a redacção de um tratado incompreensível para a generalidade dos cidadãos, incluindo os próprios dirigentes políticos e afastando a sua aprovação da esfera dos cidadãos, deixando a tarefa a cargos dos directórios partidários, que contam com a submissa disciplina de voto partidária nos seus parlamentos. A chico-espertice não costuma dar bons resultados e o Tratado de Lisboa promete ter, por isso, o destino que merece. A União Europeia não pode ser construída à margem dos cidadãos, tem de ser construída com a sua participação directa. Os cidadãos não são estultos, sabem decidir bem se as questões lhes forem colocadas de forma clara, objectiva e transparente.
Friday, April 25, 2008
A democracia americana
Hillary Clinton arrisca-se a perder as primárias democratas nos Estados Unidos por não terem sido contabilizados os votos da Florida (210 delegados) e Michigan (156 delegados), onde a sua vantagem era esmagadora. Aparentemente, estes estados foram sancionados por as "distritais" terem realizado as primárias antes da data indicada pela direcção nacional do Partido Democrata. Venceu a burocracia, perdeu a emocracia.
Thursday, April 17, 2008
Entendimento na Educação: uma Vitória de Pirro
Não gostei do acordo da Plataforma Sindical de Professores e o Ministério da Educação. Os sindicatos abdicaram do essencial e contentaram-se com o acessório. Nenhum dos problemas que motivou a manifestação de 100 mil professores foi resolvido. Uma vitória de Pirro, como lhe chamou Santana Castilho. E não fica bem à Fenprof afirmar que a esmagadora maioria dos professores concorda com este acordo. Estou mesmo em crer que se houvesse um referendo à classe, realizado de forma independente, o "entendimento" seria chumbado. No mínimo, a Plataforma deveria admitir que o "entendimento" não é consensual, é isso que se ouve nas salas de professores deste país.
Judite de Sousa vs Fernanda Câncio
A entrevista de Judice de Sousa a António Borges, no dia 17 de Abril, na RTP mostra a diferença de estatuto que a separa de Fernanda Câncio. Judite convidou um político que é adversário declarado da direcção do PSD a que pertence o marido e nem por um segundo abandonou a neutralidade política durante a entrevista. A independência política não se consegue puxando pelos galões profissionais ou pelo currículo. A independência e a credibilidade profissional conquistam-se com o exemplo e as provas diárias! E Judice de Sousa é um bom exemplo.
Wednesday, April 16, 2008
Do palanque para o palácio
A ida de Jorge Coelho para a presidência da Mota Engil só vem confirmar a promiscuidade entre o poder económico e o poder político, depois de Pina Moura, Armando Vara, Dias Loureiro e Ferreira do Amaral. Num momento em que o primeiro-ministro anuncia um megapacote de obras públicas no País (repetindo o erro dos anos 80 e 90), Coelha salta do palanque de um comício nacional do PS para a presidência da maior empresa portuguesa de obras públicas. Dizem os cínicos que os homens têm de ganhar a vida. Pois têm, mas será que só há empregos nas áreas que tutelaram ou em empresas que dependem quase exclusivamente do Estado? Ou será por ser nessas áreas que a sua agenda de contactos é mais valiosa? Se for o caso, e eu acredito que sim (basta ver as declarações do responsável da Prisa ao justificar a escolha de Pina Moura para a TVI), é caso para ficarmos deveras preocupados. Cada vez é mais óbvio que para se enriquecer em Portugal é preciso ter não mérito ou talento, mas relações privilegiadas com o Estado e o poder político que o controla. Na América, as pessoas enriquecem primeiro e depois dedicam-se à política. Em Portugal, a política serve, antes de mais, para as pessoas melhorarem o seu nível de vida. É natural que o Bloco Central não mostre qualquer vontade em mudar a lei das incompatibildades. Como eu os compreendo...
Monday, April 14, 2008
Independência, coração e RTP
Fernanda Câncio foi convidada, através de uma produtora, para produzir uma série de documentários para a RTP2. Diz a jornalista do DN que tem currículo na área social e que a sua vida privada só a ela diz respeito. Falta saber se a jornalista mantém a sua independência. Se assim fora, nada a opor. Ora, o que se depreende dos artigos de opinião da jornalista no DN é que não é isso que acontece. Pelo menos, não me lembro de um único artigo - e li bastantes - onde a jornalista tenha criticado o Governo. Ninguém censura Fernanda Câncio por não o fazer, nem que mantenha uma relação de intimidade com o chefe do Governo, o que não pode é vir reclamar uma independência que não tem. E para se trabalhar para a estação pública de televisão, ser independente do poder político é condição indispensável. Não é o seu caso. Poderia Fernanda Câncio manter a sua independência política, separando, num exercício difícil, coração e profissão. Há alguns casos no mundo, raros, em que tal aconteceu. Pelo que lemos do que escreveu, não foi isso que aconteceu com a jornalista do DN. Não tem razão, por isso, Fernanda Câncio e a RTP. Contudo, tal não significa que a queixa da direcção do PSD seja pertinente, não é seguramente a contratação de Fernanda Cãncio pela RTP que preocupa os portugueses. E não faz sentido o maior partido da oposição convocar uma conferência de imprensa para falar de uma questão que, não sendo irrelevante, tem de ser considerada menor face aos graves problemas do País.
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